5.9.11

Quando você era jovem

Nada acontece por acontecer, nada brilha por brilhar, nada surge por surgir, nada se escolhe, tudo acontece, e naquela noite ao luar, olhando pela sua janela, olhando a cidade enfeitada de luzes, prédios, enormes prédios  transitos exescivos, a senhora descobriu isso. Descubrira, que para além disso o tempo nunca cura uma ferida completamente, permanece sempre a sua marca em nosso corpo, e quando a dor volta, o susedido pode trazer a ferida em peso. E desta vez para sempre inesperadamente...

Era domingo, lá fora nevava fortemente, Joane, desejava sair a rua, desejava estar com o seu melhor amigo mas a sua mãe não deixava, tinha medo que o vento forte lhe causa-se constipação.
Joane, trancou-se no quarto, pensando em ideias para ir ter com ele, pensou tanto mas nenhuma ideia lhe surgiu até que o seu olhar tímido e eternamente basto se tornou num olhar vazio e triste. As lágrimas invadiram completamente os seus lindos e enormes olhos, escorreram pelo seu rosto até que chegaram ao seu sorriso enorme que acabou por se perder na escuridão do pensamento.
Ela começou a recordar tudo o que com ele passará, todos os anos que com ele crescerá, todas as lamentações e alegrias que com ele partilhara, todos os segundos que apenas com ele queria estar, recordou as fotos de bebe e as fotos de agora que tinham juntos, recordou todas as demonstrações de afecto que com ele partilhara, demonstrações que com mais ninguém partilhará, e hoje, depois de mais de doze anos juntos, ele irá partir, partir sem saber se algum dia voltará, partir, hoje as nove da noite nunca mais o verá e nem despedir-se dele podia.
Pensava tanto, foi quase impossível quebrar-lhe os pensamentos, mas um barulho irritante cortou fortemente os seus pensamentos, e precipitada levantou-se, limpou as lágrimas e atendeu o telemóvel. Ele ligara-lhe e disse-lhe para ir ter com ele a porta de casa dela, já que ela não tinha ido a sua casa.
Ela sorriu, e permaneceu com os olhos vermelhos, mas correu sem tropeçar escada abaixo, correu pelo corredor, correu a abrir a porta, correu de mãos dadas com ele até ao sofá.
Sem falar, permaneceram de mãos dadas no sofá a olhar fixamente durante mais de meia hora um para o outro, e sem ela contar, ele perguntou-lhe "porque tem os olhos vermelhos?" e ela "estive a cortar uma cebola, não se nota logo?" e ele "não brinques rapariga..." e ela "então diz lá qual pode ser o outro motivo? já que me conheces tão bem..." e ele "desde criança, tá?" e ela "tá" e ele "por favor..?" e ela "estou óptima tá? vou viajar hoje as nove da noite e tudo, que maravilha já viste?" e ele "já sabia..." e ela "...e mais, vou deixar pessoas que sempre me chatearam a cabeça e tudo, espectáculo!" e ele "também estou a sofrer com isto..." e ela "desculpa-me." e desataram ambos a chorar, abraçando-se.
Chegando a hora de ele ter de ir embora virou-se para ela e disse "eu fico, ela é que vai, pode ser?" e ela "...mas..." e ele "eu serei esta pulseira, e está pulseira serei eu. A pulseira vai, eu fico." Colocou a pulseira no seu colo, largou a sua mão, e entre lágrimas desapareceu sem deixar rasto, sem se despedir, sem fechar a porta, deixando apenas uma pulseira com ela, uma estanha pulseira que invadira a sua vida a partir daquele momento.
(15 anos depois)
Quinze anos tinham passado, muita coisa tinha feito até ao momento, mas nunca esquecera o dono daquela pulseira, o dono de metade do seu pequeno coração, ela sabia que era aquela amizade que considerava a verdadeira e eterna, era aquela amizade que mesmo sem uma única chamada ter recebido até ao momento, sem uma única visita, sem um único apoio, sem uma única carta, sem um único olhar e abraço trocado, sem...nunca o ter encontrado em cada uma das suas viagens, era aquela amizade que considerava a eterna, apesar de não saber da existência do seu paradeiro em parte alguma.
Certo dia, chegando a cidade de Nova Iorque, numa das suas ferias, ficou tentada a ficar, não soube o motivo, mas queria permanecer para sempre ali, queria ficar e nunca mais sair. Sem um único porque na cabeça e sem uma lógica voluntária aparecer, começou a arranjar um trabalho e com as poupanças que ainda tinha, arranjou uma casa, em muito mau estado, mas arranjou.
Passado uns anos, já tinha um trabalho no qual sempre sonhou, já tinha uma casa no meio de Nova Iorque num apartamento lindíssimo e dinheiro para viagens a lugares inesquecíveis.
Era domingo, sentiu arrepios de frio, mas o inverno não lhe parecia tão intenso como o da sua pequena aldeia, então decidiu sair e sentar-se nas escadas do seu apartamento a ler um livro, mas sentiu-se perturbada, porque o barulho era imenso, então pegou no mp3 e ouviu uma boa musica olhando as pessoas que por si passavam e lendo.
Até que os arrepios que no seu corpo se entrelaçavam eram cada mais intensos, reparou que já não eram só arrepios de frio, o formigueiro na barriga voltara e intensamente se espalhou pelo corpo todo, o seu olhar tinha se cruzado com o olhar de um senhor e ela sem saber o porque sentirá aquilo tudo.
Voltou para dentro de casa, deixando o senhor sozinho em frente a porta do seu prédio, especado a olhar para si.
Entrou no prédio, clicou no botão, entrou dentro do elevador, chegou a porta de casa, tirou a chaves do bolso, abriu a porta, bebeu um copo de água, pousou o copo mas de imediato foi beber outro, pois sentia-se fria, cada vez mais fria a cada minuto que passava e cada vez que se afastava mais daquele senhor, mas guardou o copo, foi guardou o livro, desligou o mp3 e nem passado cinco minutos viu-se a correr feita desesperada porta fora, preferindo as escadas em vez do elevador desceu as escadas do prédio, e chegando a porta da entrado do prédio, viu que lá de pé, com os olhos arregalados como sempre teve, com o vicio das mãos no bolso e com um sorriso e duas lágrimas no seu rosto, o senhor, ele, o seu melhor amigo, permanecia ali dizendo "eu sabia que voltavas.".
Não sei explicar o sentimento que ambos tiveram no momento, sei que se abraçaram intensamente durante horas, falaram como nunca tiveram falado antes, percorreram a cidade de Nova Iorque sozinhos as tantas da noite sorrindo, dando gargalhadas, contando a sua vida um ao outro, e acabaram por adormecer enrolados nos casacos num banco de jardim de mãos dadas e abraçados.
De manha tiveram de ir cada um para seu lado, para trabalhar, mas combinaram estar juntos a noite, pois descobriram que moravam na mesma rua, na mesma cidade, e sinceramente aquela amizade morou no coração um do outro para sempre, apesar da distancia.
Depois de uma noite maravilhosa ao lado do seu amigo, depois de enormes conversas, e depois de viver um dos melhores momentos da sua vida a beber um simples café com um amigo numa tasca qualquer, sentou-se de pernas cruzadas, na cadeira do seu quarto de pijama olhando pela janela, reflectindo a historia de vida de ambos, reflectiu tanto que reparou que amizades verdadeiras nunca se separam, e se algum dia se separarem, voltaram a encontrar-se, porque dois corações que se juntam um dia e o mais pequeno olhar já é marcante depois quando se voltarem a reencontrar o olhar ira ser tão ou mais marcante.
Por isso sorriu sozinha olhando o céu e bebendo o seu chá, e hoje aquele medo que durante quinze anos ainda permanecia no seu coração desapareceu, o medo de nunca mais voltar a encontrar as amizades verdadeiras, de deixar as amizades verdadeiras, desapareceu, porque naquele dia aprendeu que ira deixar as amizades em liberdade e ser livre também, porque se a amizade for realmente tão forte assim ira se encontrar mais e mais e mais uma vez depois de muitos anos, se for realmente verdadeira nunca acabara, a união será eterna e a voz das suas palavras permanente em nosso coração.
Depois de acabar o seu chá, fechou a janela, arrepiada por causa do frio, deitou-se, e sorriu para o escuro, dizendo que amava o seu melhor amigo.
Hoje depois de dois anos, ainda ali vivi em Nova Iorque e o seu melhor amigo também, continuam a viver os dias com a máxima intensidade, continuam a estar juntos sempre que podem, nem que seja um ola e uma curta conversa até a porta do trabalho de cada um, hoje ali naquela noite de luar, olhando ainda o intenso transito e todo o resto, descobriu ainda que vivia no meio daquela imensidão de cidade , e sabia que nela vagueava a felicidade, e se amanha ela tivesse de partir, ou ele tivesse de partir, mais cedo ou mais tarde os seus olhares se cruzariam novamente.
Fechou a janela, vestiu o casaco mais pratico, pegou na mala, e foi, batendo a porta atrás de si.