8.12.11

A bolha

Eram oito e meia da noite, quando me fui preparar para ir tomar banho. Naquele dia tinha pensado em tomar o banho mais demorado da minha vida, bem, podem pensar que eu não estava muito bem da cabeça mas os meus pensamentos estavam demasiado descontrolados e as lágrimas eram as únicas a terem atitudes de se expressarem, em mim. Tinha pensado em deixar correr a água morna e pesada pelo meu corpo abaixo sem que uma única gota fosse desperdiçada, tinha pensado em cantar aquelas músicas que penso não saber cantar enquanto deixava as minhas lágrimas frias secarem junto a água morna que do chuveiro saia, deixando-as morrer. Queria que aquele sentimento, sentimento de angustia, perda e insatisfação, fazendo-me sentir menor que qualquer pessoa, desaparece-se com tanto calor.
Do lado de cá pensei que fosse a melhor atitude a tomar, iria me fazer bem, do lado de lá, senti que o desabafo pleno e um abraço seguro seriam a melhor atitude, mas não suportei, e fui.
Comecei por abrir as gavetas do meu quarto retirando de lá tudo o que precisava, enquanto o fazia admito que parecia que por dentro gritava comigo mesma estando com um rosto pálido, sem as minhas maças do rosto rosadas, apenas, lágrimas no canto do olho. Antes de mudar o calçado para uns chinelos mais confortáveis e quentes, ainda abracei o meu irmão que passou pelo corredor e me disse "manaaaa" e se agarrou a mim transmitindo-me uma força inigualável, logo de seguida, retirei o casaco, fui, liguei o aquecedor, mudei-me, liguei a água e comecei a senti-la atravessar-se pelo meu corpo começando a fazer-me pensar em tudo, em tudo o que me estava a machucar de momento e desde algum tempo.
Deixando a água escorrer-se pelo meu corpo, pensei, "repensei", chorei, "rechorei" sorri, "resorri", cantei, "recantei", senti-me feliz e senti-me infeliz.
Até que a certo momento enquanto chegava champô ao cabelo apareceu-me uma bolha de sabão a frente do nariz, não liguei muito, de momento, até que quando vou a ligar a água novamente me aparece outra a frente dos olhos e esvoaça, esvoaça fazendo com que eu, desse a minha primeira gargalhada naquele banho demorado, acabando por de seguida ficar ali, estática olhando aquela bolha que ao contrário das outras não rebentava, uma bolha que se identificava comigo, não sei porque.
Lentamente, sorrindo de verdade, tentei aproximar-me dela, aproximei-me e "zazzzz" ela rebentou em cima da palma da minha mão. Ao início fiquei triste, mas quando uma brisa de frio me fez arrepiar pelo corpo todo, abri a água quente, e sorrindo deixei que ela mais uma vez caisse apercebendo-me que aquela bolha deu-me uma grande lição, na verdade, nós próprios é que fazemos das coisas, boas ou más, nós próprios depois de muitas derrotas é que chegamos a maior conquista, mas não nos apercebemos disso.
Depois de tudo passar, e de naquele dia me ter deitado muito cedo, aconchegando-me no calor abafado da minha cama, hoje consigo falar disso, e admito que continuo triste, um triste incapaz de se recompor com alguma palavra amiga, mas um triste esperançado, um triste com um sorriso permanente por fora, fazendo me sentir então, que consigo, independentemente de tudo o que possa sentir, independentemente do que sou e do que acho que as outras pessoas são, independentemente se elas são melhores ou piores que eu, nunca irei desistir, sentindo-me bem ou não, a derrota nunca fez parte do meu ser, simplesmente a luta.
E a dor, a angústia, a perda e a insatisfação? Que me façam crescer.
Ainda hoje penso naquela bolha, não por me aparecer no banho assim de repente, mas por me causar um sentimento verdadeiro no meio daquela alvoraça de sentimentos que estava a ter.
Se eu estou triste hoje, comigo mesma? Estou, mas espero, que isso faça com que eu cresça e dê sempre mais de mim.